12.11.11 – sai de Belém às 17:50, com muitas lágrimas nos olhos, muitas saudades no coração. A última vez que veria essas pessoas dentro de um ano... Apesar da despedida um tanto sofrida, cheguei em Fortaleza confiante, o medo inicial passou. Meu voo pra Lisboa foi muito tranquilo, de onde estava não podia ver o oceano, especialmente por ser noite. Na chegada, um vácuo enorme que levou uma mão ao assento e a outra ao coração, por um minuto pensei que ia deixar de ser ateu e rezar ate a queda inevitável...
13.11.11 – Saída de Lisboa cheia de turbulência, mas a chegada foi tranquila. Londres do alto é muito linda, não via a hora de sair do avião e começar a viagem pra Oxford. Cheguei em Oxford eram 19:30h, tudo escuro, um frio de rachar e perdido, sem saber em que direção ir. O motora não fez a menor questão de me ajudar a encontrar o endereço do albergue, apontou pra uma direção qualquer e foi embora. Mas uma moça me indicou o caminho, e apesar do frio eu não fazia ideia de quanto, fui em linha reta e achei o albergue...
14.11.11 – Manhã nublada, nenhum um sinal de sol pra qualquer lugar que se olhasse. Ia primeiro à 51, Banbury Road, endereço da School of Anthropology and Museum of Ethnography, falar com Vicky Dean, secretaria da Faculdade (eles chamam escola) com quem troquei milhões de emails que não relatei pra vcs, para ter informações sobre o meu cartão de estudante (sem ele, não se entra em nenhum prédio da Universidade...), mas o frio era tão grande que resolvi mudar os planos e ir no shopping comprar roupa mais quente. Depois de um tempo perdido em meio as novas tendências do Outotono-Inverno, e calculando libras, comprei um kit anti-frio, que salvou meu dia.
Foi também minha primeira refeição de fato na cidade, um macarrão apimentando com frango, muito apimentado na Four Candles. Um lugar bem quentinho e agradável, com atendentes muito simpáticos, exceto por um loirinha que mais parece o “Ligeirinho”, aquele chocolate quente e rua!
Fui até a Examinations Schools (81, High Street) buscar meu cartão universitário. Lindo, com minha foto e nome nele, mais lindo ainda. Quem for à Oxford, fique atento. A High Street deixa de ser High Street em um determinado momento nas plaquinhas, mas continua sendo pra todos os efeitos, por isso prestem atenção!
15.11.11 – Conheci os irmãos Josh and Jonathan, dois americanos, que moram em Berlin, e vieram a Oxford a passeio. Me deram umas boas dicas sobre o frio e me convidaram a ir a Berlin, conhecer a cidade =D. Depois, fui à delegacia pra me registrar, infelizmente não podia, precisava de um endereço fixo...Volta pra casa e começa a procurar quarto pra alugar. Isso durou o dia inteiro e nada... Josh e Jonathan me ensinara o caminho do supermercado, fui às minhas primeiras compras, hehe.
16.11.11 – Acordei às 07h, fiz a barba, tomei meu café e voltei a Examinations Schools pra terminar meu registro na Universidade. Voltei correndo pra procurar quarto e comer, afinal, eu ia encontrar com Homi pela primeira vez...com a pontualidade característica dos ingleses, o Professor Robin Ian McDonald Dunbar chegou exatamente às 13h, fiquei surpreso, eu...bem, eu cheguei uma hora antes, só pra garantir e fazer a capa pro Homi, hehehehe.
Nossa conversa foi muito amigável, e ele me explicou algumas coisas sobre a universidade, até rimos. Se mostrou disponível pra quaisquer dúvidas e se eu precisasse de alguma coisa. Gostei dele =D
Agendei algumas visitas de casas, finalmente. Conheci uma neozelandesa, Mary, eu acho, que está viajando o mundo há quase um ano. Ela faz suas viagens a pé, e visita lugares de peregrinação espiritual, sem ser necessariamente ligados ao catolicismo. Uma pessoa super interessante, com uma vivencia muito particular de olhar o mundo. Ela me fez pensar sobre a rede social dela, já que ela não usa muito a internet, nem pra pse comunicar com a família! “Não gosto da sensação de ter meus amigos e família, perto de mim num clicar dedos no computador...prefiro manter um certo grau de distanciamento, a internet é interessante, mas gosto do distanciamento, de me sentir no meu mundo, pessoal”. Fiquei muito interessado por essa experiência, justamento o oposto do que eu procuro, procuro o contato, ver, tocar, sentir o calor num aperto de mão ou abraço. Ao menos ver as pessoas que amo e conversar com elas pelo face, MSN ou skype.
17.11.11 – Fui a 64, Banbury Road, Institute of Cognitive and Evolutionay Anthropology, assistir, como ouvinte a uma aula de mestrado do Dunbar. O prédio é propriedade do College Kellogs (da mesma marca da comida mesmo, eles também fundaram este college). O prédio, claro é histórico, e segundo o Dunbar, se um crime acontecer nas dependências de um college, é responsabilidade da direção do college tomar providencias. A policia pode não ser chamada, se eles decidirem assim. Eu fiquei obviamente chocado com isso. O Dunbar disse que isso é uma herança da Idade Média, onde os colleges foram fundados pelos monges, que não precisavam dar satisfação ao governo do Imperador. Essa situação se manteve até agora. Então, cuidado entrar num college na Inglaterra. Sua família nunca mais pode ver seu corpo...
Voltando às questões acadêmicas (bem menos interessantes), o curso é Human Evolution and Behaviour (com U no behaviour tá?). O curso já está no fim, começou mês passado, mas assisti a aula de Decisões Reprodutivas. Nas aulas, os alunos tem que ler o material e apresentar os pontos chave da discussão, mas não devem apresentar os textos (pelo menos foi isso que eu entendi, rs). Tal qual no Brasil, tem aqueles que apresentam, tem alguns pouco gatos pingados que fazem comentários, muito bom por sinal, mas a maioria fica calado e não tem perguntas a fazer. Eu que sou índio, e não tinha lido os textos (estava procurando casa, não sou vagabundo) fiquei calado. Ainda por cima não tinha dormido na a noite anterior por causa do dor na garganta, estava com sono e sentindo dor. Porém, pra me deixar boquiaberto, o Dunbar dava um show toda vez que falava. A maioria das coisas não eram novidade pra mim, já que era um curso de mestrado (sem desmerecimento, claro, mas eu já to calejado de certas questões em evolução humana ;D). mas quando o senhor Robin Dunbar falava, eu acordava do torpor do sono e da dor, e ficava impressionado com a capacidade dele de fazer relações entre as coisas, lembrar detalhes importantes que os alunos esqueceram, criticar os pontos fracos dos estudo demográficos, levantar dados históricos que aparentemente são usados para contestar a teoria da evolução, mas que podem ser interpretados por estudiosos mais experientes. Ele sempre perguntava, “vocês não aprenderam história da Europa na escola?” (sempre com um tom cínico e sarcástico – que descobri rapidamente ser típico dele, com um leve movimento de boca para a esquerda).
18.11.11 – depois de uma noite com muita dor na garganta e com dificuldades pra dormir em virtude dela, acordei super tarde e fui atrás de uma casa, estava pela primeira vez desde minha chegada à Inglaterra, superatrasado! Mas consegui chegar ao local, e ver a casa e o quarto. Pareceram bons, vamos ver se fico com eles...