Eram nove e meia da manhã de uma segunda-feira nublada. A previsão era de chuva para todo o dia... A professora instruía a turma sobre os jogos. Ela costumava contar aos seus alunos como o jogo foi criado, o porquê das suas regras, antes de treiná-los para jogar propriamente falando. No entanto naquele dia, ela não parecia muito disposta. Estava ligeiramente impaciente, uma coisa incomum para uma professora tão atenciosa e carinhosa com os seus alunos.
Algumas dores lhe fisgavam o ventre, o que os alunos entre 5 e 6 anos puderam deixar de perceber, mesmo sem entender do que se tratava. “O que foi tia?”, perguntou uma menina. “Nada, a tia só esta com um pouquinho de dor, mas já vai passar”, respondeu a professora.
As 11h ela teve que dispensar a turma, pois as dores aumentaram em intensidade e diminuíram os intervalos entre uma fisgada e outra. Resolveu se sentar um pouco, pois sua barriga pesava, tomou um copo d’água. Dirigiu-se até o a sala dos professores e ligou para o emprego do marido, ele não estava, tinha acabado de sair para uma viagem de serviço. Avisou a diretoria que voltaria para casa, estava em trabalho de parto.
Morava numa casa pequena, construída no terreno da casa dos sogros. “O que foi minha filha?... Você pegou chuva?”, perguntou a sogra. “Chegou a hora”, retrucou a gestante. Começou, então a arrumar a mala do bebê, com fraudas, roupinhas, meinhas e luvinhas. Deixou cair uma lágrima, era sua mãe que fazia falta naquele momento, a mãe que ela perdeu quando tinha apenas 15 anos. Gostaria de vê-la hoje, gostaria de sentir segurança nos seus braços, afinal era seu primeiro filho, e sentia-se insegura. A sogra acariciou levemente os seus cabelos, expressando sem palavras, mas com um gesto simples e significativo: “Eu estou aqui com você”.
O seu pai não estava em casa, estava no trabalho, mas a madrasta informou que iria avisá-lo, assim que possível. Era hora de deixar a sua casa e ir para o hospital.
Passava das 13h quando a sua ginecologista deixou a sala da enfermaria, instruindo a future mãe e a future avó, sobre os procedimentos que deveriam tomar, principalmente, que ainda não era o momento, ela deveria aguardar mais um pouco. Enquanto isso, as contrações só aumentavam, tornavam-se insuportáveis.
Agora chovia forte lá for a, mal se podia ver o que acontecia do outro lado da rua. Sua irmã mais velha chegaria por volta das 15:30h, deveria ter ser atrasado com o temporal. A barriga pressionava-lhe a bexiga e sentia muita vontade de urinar. Sentou-se, ao que foi surpreendida por uma enfermeira. “Levante daí, seu filho pode nascer e bater com a cabeça no assento!”. Com medo, decidiu se deitar.
O relógio marcava 18:02, a chuva fazia uma pausa, sua irmã e sua sogra agora conversavam sobre vários assuntos para tentar distraí-la. No entanto, ela não ouvia a conversa, lembrava da mãe. Queria ter seu marido ao seu lado, e também seu pai.
As 20h todos já estavam presentes, e a conversa era grande na enfermaria. Outras mulheres também em trabalho de parto estavam à espera, outras tinham acabado de voltar com o filho no colo, amamentavam os pequenos. Entre um assunto e outro segurava forte a mão do marido, era outra contração profunda.
As 21h, a sua medica veio verificar sua situação. “Ela já tem dilatação para a passagem do bebê. Vamos levar você agora”. Sentiu um frio imenso tomar conta do seu corpo. Parecia que tinha lhe faltado o sangue e não sabia onde estava nem o que estava fazendo. Todos lhe deram um abraço forte e lhe disseram que tudo ia dar certo, que ela precisava relaxar. Não teve anestesia, nem cesária, seria um parto normal, pois era melhor para ela e para o bebê. Com coragem, respirou fundo e disse para a médica: Ele quer nascer. Depois dos procedimentos médicos necessários, às 21h e 50min, nasceu seu filho, um menino chorão. Chovia muito lá fora, mais forte do que antes. A mãe cansada e o filho faminto, enfim, se encontraram depois de longos nove meses de espera. Olharam-se nos olhos, e isso era tudo.
O nome do bebê, a mãe já tinha escolhido a muito tempo. Teria o nome do pai. Independente do nome que fosse, se chamaria Júnior.
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Te amo mãe!






